Carlos Gardel: a trajetória e a lenda do Rei do Tango

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Autor: Alexandre Bertolazi Categoria: Conteúdo de Marca, Turismo Tags: Carlos Gardel, Dia de Carlos Gardel, Dia do Tango, Rei do Tango, tango

Tempo de Leitura: 13 min

Alguns seres humanos estão destinados a reverberar na História para sempre. São pessoas que, por seus feitos, são alçadas à categoria de personagens imortais. Mas somente alguns poucos conseguem ir além. Afinal, personalidades históricas têm suas vidas registradas, fotografadas, filmadas e milimetricamente documentadas. Mas somente aqueles elevados à categoria de mito conseguem ter uma aura de mistério, alguma imprecisão que possa abrir margem para discussões apaixonadas entre os defensores desta ou daquela teoria. E é sobre um destes homens míticos que vamos falar hoje. Nada mais nada menos do que o Rei do Tango, Carlos Gardel, que em 2003 teve sua voz declarada como Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO.

Como todas as lendas, Gardel também tem a sua imprecisão mítica para que os apaixonados possam discutir. Ninguém sabe ao certo onde nasceu, nem em que ano. Porém, é sabido que hoje, dia 11 de dezembro, seria seu aniversário. Feliz Cumple, Carlitos!

Nascimento e infância de uma lenda

Há duas teorias sobre a data e local de seu nascimento. A hipótese “uruguaísta” defende que ele nasceu em Tacuarembó, entre 1883 e 1887. Já a hipótese “francesista” sustenta que ele teria nascido na cidade francesa de Toulouse em 1890, sendo batizado como Charles Romuald Gardes. Como os relatos sobre seu nascimento e infância estão abertos a debate, é difícil apontar com precisão como e onde foi sua infância.

Porém, ambas as correntes concordam que ele foi abandonado pelo pai, e passou a viver em Buenos Aires pelo menos desde 1893. As informações sobre local de residência e estudos também são imprecisos, e variam de acordo com o historiador e a corrente que defende. Porém, é certo que na primeira década do século XX Gardel esteve envolvido com atividades “à margem da lei”, como sugerem alguns registros policiais da época que o citam.

Juventude e iniciação artística

Criado na região dos teatros portenhos, cujo eixo fica na então calle Corrientes (hoje avenida), desde pequeno teve a oportunidade de estar em contato com teatros, atores e cantores. Sua mãe trabalhava passando roupas, e não era raro ver o jovem Gardel trabalhando em funções ligadas às apresentações. Com o contato próximo, costumava imitar os exercícios vocais e aquecimentos dos artistas, o que viria a ser útil para a sua própria carreira anos mais tarde.

Incentivado pelos irmãos Traverso, fez suas primeiras apresentações semiprofissionais no Bar O’Ronderman e no comitê do Partido Autonomista Nacional, o partido conservador da época. Seu canto teve muita influência dos payadores, versistas improvisadores que inventavam a letra de suas canções na hora. Porém, Gardel não tinha habilidade para o improviso – característica determinante para o sucesso como payador. Mesmo assim, a qualidade de sua voz foi abrindo caminho pouco a pouco.

“Gardel nunca fué payador. Él era cantor”. – Pablo Taboada, historiador

O dueto Gardel-Razzano

No começo da década de 1910, Gardel encontra-se com o uruguaio José Razzano, el Oriental. Carlitos já cantava em dueto com Francisco Martino e, com a chegada de Razzano, formou-se um trio, que eventualmente se transformaria em quarteto com Saúl Salinas. Os quatro fizeram apresentações semiprofissionais por toda a Argentina, e com o tempo, acabou destacando-se o duo Gardel-Razzano.

Em 1912 a Casa Tagini, representante da Columbia Records, convidou Gardel para gravar sete discos duplos com canções de sua escolha. Lançados em 1913 – quando Gardel ainda era um completo desconhecido – os discos não obtiveram o retorno e nem o reconhecimento desejado. E assim o Rei do Tango teve que esperar até 1917 – quando encerrou-se o ferino contrato de 5 anos – até ser convidado a gravar novamente.

Em 1914, a dupla Gardel-Razzano foi contratada para apresentar-se no suntuoso cabaré Armenonville em Buenos Aires, por um cachê de 70 pesos por noite. Uma soma tão inesperada que Gardel imaginou tratar-se de um pagamento quinzenal. Para muitos historiadores, esta apresentação é considerada a primeira aparição de Gardel como cantor profissional. O sucesso foi tanto que, definitivamente, as portas dos grandes espetáculos portenhos abriram-se para a dupla. E, em seguida, estrearam no Teatro Nacional, em sua primeira apresentação na calle Corrientes.

Gardel fotografado por José María Silva – 1917

O início do estrelato

O ano de 1915 seria um ano complexo para Gardel. Foi um período em que as dificuldades do passado misturavam-se com o sucesso do futuro, e o cantor não sabia exatamente em qual dos dois momentos se encontrava. A dupla recebeu convite para apresentar-se em Montevideo, contratados pelo empresário uruguaio Manuel Barca. Porém, receberam a proposta completamente incrédulos e desconfiados. O historiador montevideano Julio Cesar Puppo registrou assim este encontro:

“Nisso chega Gardel. Um moço redondo, gordo.
– Ao menos teremos o suficiente para regressar a Buenos Aires?
É uma frase histórica. Afinal, uma passagem de ida e volta a Montevideo custava 3 pesos, com direito a ceia e café da manhã. Havia gente que fazia a viagem apenas pela oportunidade de comer. Então, não é surpreendente a incerteza e desconfiança dos dois jovens. Porém Barca, que também havia sido educado na dura escola da rua, entendeu a insegurança dos dois jovens.
– Quanto querem ganhar? – lhes perguntou. Os dois jovens se entreolham, meditam por um instante, e Razzano pergunta:
– Diga-me com franqueza, senhor: cinquenta pesos é pedir muito? – tratava-se de pesos argentinos.
– Vocês não sabem o que valem! – responde Manuel Barca comovido com a simplicidade dos dois. E assim, o acordo foi fechado”.
Julio Cesar Puppo –  Ese mundo de bajo – 1966.

Em Montevideo, foram recebidos como celebridades. A cidade estava coberta com cartazes com seus rostos. A agenda incluía uma programação com recepção no porto, café da manhã, entrevistas com a imprensa e uma apresentação fechada para pessoas influentes da época. Em 18 de junho apresentaram-se no Teatro Royal completamente lotado. E, pela primeira vez na carreira, ouviu o pedido de bis da plateia emocionada, que gritava “tocate otra, Carlitos”! E por incrível que pareça, com todo o sucesso recém alcançado, Gardel ainda não havia gravado nenhum tango!

O primeiro tango gravado por Carlos Gardel

O ano era 1917, e Gardel gravou o tango Mi noche triste”. A interpretação é considerada a data de nascimento do tango canção: após décadas de evolução, finalmente o tango encontrava intérpretes e letristas capazes de interpretar a mesma carga emocional presente na música e na dança. Mas o êxito do “novo estilo” não foi imediato. Com sua letra lunfarda e com uma temática de um homem abandonado por sua mulher, a canção foi recebida pelo público com desinteresse. Por outro lado, os cantores puristas viram com maus olhos esta canção com linguagem de rua e com uma sensualidade prosaica que não fazia jus à “verdadeira arte do tango”.

A voz e a maneira de cantar de Gardel foram adaptando-se, e assim ele evoluía para tornar-se um cantor de tango. Aproveitando-se de suas raízes na payada e o gosto pela ópera e a música napolitana, foi desenvolvendo um estilo de cantar mais lento, mais grave, melancólico e menos ansioso. Uma interpretação emocional que o ligava aos sentimentos do ouvinte. Conta o historiador José Gobello sobre o estilo desenvolvido por Gardel:

“Lentamente, Gardel foi-se transformando em um cantor de tangos. E teve que criar a sua própria maneira de cantar porque ninguém – salvo o compositor Contursi – o fez antes dele. O que cantavam Mathon, Gobbi e Villoldo não era tango como hoje o conhecemos. Era uma mistura de cuplé e milonga”.  – José Gobello

 

Gardel vestido de gaúcho – uma exigência local para poder cantar tango na França. Foto: José María Silva.

Estrela de cinema

O ano de 1917 seria coroado com a estreia de Carlos Gardel no cinema, interpretando o protagonista Fabián no longa metragem Flor de Durazno. Porém, não foi uma tarefa fácil. Aquele que viria a se tornar o Rei do Tango quase abandonou as gravações, insatisfeito com sua atuação. Foi convencido pelo diretor com o argumento de que seriam incluídas diversas cenas suas cantando… embora fosse um filme mudo! Independente disso, o filme foi um sucesso, permaneceu em cartaz por muitos anos e teve mais de 800 exibições. Um recorde para a época.

Já consolidado após as turnês europeias nos idos dos anos 1920, Gardel voltou-se para o cinema nos anos 1930. Assim, demonstrava seu talento e sensibilidade para detectar os mecanismos modernos de popularização massiva. Rompia assim todas as fronteiras nacionais, e transformava-se definitivamente em um ícone mundial.

Pode-se dizer, inclusive, que Gardel esteve à frente de seu tempo, antecipando em mais de 30 anos o fenômeno massivo que une a paixão, a identificação pessoal e a música. O crítico Claudio Ivan Remeseira batizou esta fase como Gardelmania, precursora da beatlemania dos anos 1960, embora a história da indústria fonográfica até hoje não lhe tenha dado este crédito.

Gardel atuou em filmes argentinos, franceses e americanos, e tornou-se o maior astro de fala hispânica do mundo.

E como tal era tratado, pelo público e pela crítica.

Mas na Argentina nem tudo ia bem…

Ao mesmo tempo em que conquistava o mundo, paradoxalmente, Gardel era criticado por seus compatriotas. Em agosto de 1931 foi a Buenos Aires e lá ficou durante 9 semanas. Foi quando pôde sentir todo o ressentimento do mundo artístico e dos meios de comunicação da Argentina. Em 15 de setembro de 1931, o escritor argentino Carlos de la Púa publicou uma dura carta aberta a Gardel, onde dizia:

“Larga destas gringadas que serão muito bonitas, mas que nós não concebemos sendo cantadas por ti. Não profanes, irmão, as coisas nossas que te deram glória, alternando com essas musiquinhas franco-napolitanas que não nos interessam. Tua querida Buenos Aires, a rua Corrientes, a Cortada, os burros, o tango, a milonga… essa é a tua vida, tua verdadeira vida, o resto é mentira. Abre mão destas coisas diferentes… e um dia me agradecerás”!
Carlos de la Púa

O sucesso absoluto da turnê sulamericana

Na década de 1930 Gardel é a estrela máxima, a grande referência artística para qualquer pessoa no mundo que fale espanhol. Em 1935, sai de Nova York para aquela que seria sua última turnê. Porto Rico, Venezuela, Aruba, Curaçao, Colômbia, Panamá, Cuba e México seriam os destinos.

O cantor argentino era seguido por multidões onde quer que fosse. Constantemente era necessário chamar reforço policial para conter as hordas de fãs. Em Medellín, um dos empresários tentou desculpar-se pelos “incômodos da efusividade popular”.

Empresário: Que desagradável deve ser para um artista ter que suportar isso tudo.
Carlos Gardel: Não é assim. Me sinto feliz e satisfeito com as homenagens do povo. Pois é meu povo, que sofre e ri comigo e que me aplaude. Foi o povo quem construiu meu pedestal, meu prestígio e minha glória.

No domingo 23 de junho cantou na rádio La Voz de la Victor em Bogotá, diante de um público imenso que tomou os estúdios e a praça Bolívar. Foram colocados alto-falantes externos na rua para que o povo pudesse acompanhar aquela que acabaria sendo a última apresentação de Carlos Gardel. Cantou os tangos “Cuesta Abajo”, “Insomnio”, “El Carretero”, “No te engañes corazón” para então encerrar com “Tomo y obligo“. Antes de ir embora, despediu-se com as seguintes palavras:

Antes de cantar minha última canção, quero dizer que senti grandes emoções na Colômbia. Obrigado por tanta amabilidade. Encontro no sorriso das crianças, nos olhares das mulheres e na bondade dos colombianos um carinhoso afeto para mim. Me vou com a impressão de ficar dentro dos corações dos bogotanos. Vou ver minha velha, logo. Não sei se voltarei, porque o homem propõe e Deus dispõe. Mas é tal o encanto desta terra que me recebeu e que se despede como se fosse seu filho, que não posso dizer-lhes “adeus”, então… Até sempre! – Carlos Gardel

 

Imagem eternizada de Carlos Gardel. Foto: José María Silva

A tragédia aérea em Medellín

Em 24 de junho de 1935, às 15:00, um avião Ford F-31 encaminhava-se para a cabeceira da pista do aeroporto Olaya Herrera, mais conhecido como Aeródromo Las Playas, para iniciar o processo de decolagem. Concluído o teste dos motores, começou a aceleração para decolar. A princípio tudo corria bem, embora um vento forte vindo de sul-sudeste tivesse obrigado o piloto a fazer uma correção de trajetória, aumentando assim a distância a ser percorrida até atingir a velocidade ideal para decolagem.

Enquanto isso, em uma pista lateral, outro avião manobrava para o seu procedimento de decolagem. Por causa do matagal alto, o piloto deste segundo avião – chamado Manizales – não conseguia ver onde estava a aeronave que transportava Gardel, e acabou aproximando-se demais da pista de onde decolava o F-31.

O F-31 já havia percorrido 450m de pista, quando deu um “pulinho” e elevou-se a uns 90cm do solo, mas ainda sem tirar a roda da cauda do chão. Neste momento, uma rajada de vento fez com que o avião adernasse 25 graus para a direita. O piloto tentou compensar a brusca mudança de direção utilizando a pista lateral, mas acabou indo em diretamente para o local onde a outra aeronave aguardava a sua autorização para decolar.

E assim, tragicamente, os aviões chocaram-se de frente, enroscando-se e girando em sentido horário. Como as duas aeronaves estavam com os tanques cheios, o choque foi seguido por um incêndio, que vitimou todos os ocupantes dos dois aviões. Entre os mortos estavam Alfredo le Pera, compositor de vários tangos cantados por Gardel; o guitarrista Guillermo Barbieri; o guitarrista Angél Domingo Riverol e o secretário Corpas Moreno; o imortal cantor Carlos Gardel e os pilotos do avião.

Saindo da vida para entrar para a História

No dia 24 de junho de 2005, por decisão conjunta das autoridades municipais de Buenos Aires, Montevideo, Tacuarembó e Medellín, foram recordados os 70 anos da morte do cantor, e foi instituído o Dia de Carlos Gardel. A data também é comemorada em Toulouse, na França.

Já o dia 11 de dezembro passou a ser celebrado na Argentina como o Dia do Tango, em homenagem ao compositor Julio de Caro e a Carlos Gardel, que faziam aniversário no mesmo dia.

Hoje eternizado, Carlos Gardel continua reverenciado como Rei do Tango por várias gerações no mundo inteiro.

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