Filete portenho: a alma castelhana em cores e arabescos

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Filete Portenho Buenos Aires - Hernán Piñera
Autor: Alexandre Bertolazi Categoria: Conteúdo de Marca, Turismo Tags: Argentina, Buenos Aires, Filete, filete portenho, fileteado, Patrimônio Imaterial da Humanidade, UNESCO

Tempo de Leitura: 6 min

Quem já viu fotos da capital da Argentina ou visitou a cidade deve ter reparado em certas pinturas muito características e recorrentes que aparecem por lá. Painéis com cores gritantes, letras garrafais, arabescos com flores, folhas, gavinhas retorcidas e simétricas, acompanhadas por paisagens, retratos e frases. São pinturas com aquele ar gostoso de início de século XX, e dão aquele clima vintage que remete à casa da avó, sabe? Então. Este estilo de pintura nasceu nas fábricas de carroças de Buenos Aires, no finalzinho do século 19.  Senhoras e senhoras, eis o filete portenho!

O nascimento do fileteado

O filete portenho nasceu nas fábricas de carroças e charretes de Buenos Aires, pelas mãos habilidosas dos imigrantes europeus. Italianos, conforme aponta o fileteador e artista visual Alfredo Genovese. Embora o nascimento do estilo não tenha sido documentado, podemos contar com os testemunhos daqueles que herdaram a técnica de seus pais. Os relatos coincidem ao informar que foram três imigrantes italianos que iniciaram – quase ao mesmo tempo – o desenvolvimento do fileteado: Cecilio Pascarella, Vicente Brunetti e Salvador Venturo.

Segundo Alfredo Brunetti foi seu pai – don Vicente – quem iniciou o ofício, ao aplicar uma cor intensa sobre as carroças do município. Já Miguel Venturo, filho de Salvador, foi quem incorporou a maioria dos motivos que se vê nos filetes: folhas, flores, bolinhas, cenários e frases. O filetea’o – assim, pulando a pronúncia do “d”, como os portenhos falam – conta também com cores vivas e contrastantes, que geram uma sensação de volume. A simetria e a conceitualização simbólica de elementos também estão sempre presentes.

O fileteado nasceu para embelezar as carroças cinza de Buenos Aires no final do século XIX

Estilo, elementos e popularização

A ornamentação remete ao estilo neoclássico, art noveau e gruttesco, copiados dos diferentes elementos decorativos da época. Os filetes buscavam inspiração nos bares, fachadas arquitetônicas e vitrais.

Os temas populares são os que mais aparecem. Carlos Gardel e a Virgem de Luján são os campeões. Bandeiras e flâmulas com as cores da Argentina também estão sempre presentes, como elemento quase obrigatório. Além destes, paisagens do campo, manifestações patrióticas, clubes de futebol e frases da Sabedoria Popular™ compõem o repertório.

As frases, especialmente, provam que os filetes não eram utilizados somente como ornamentação artística, mas também como forma de expressão sociocultural dos cidadãos portenhos do início do século XX.

Com a chegada dos veículos automotores, os filetes migraram das carroças para colorir o cinza dos autobuses e os caminhões de Buenos Aires.

Autobus argentino com decoração em fileteado típico. Destaques para Gardel e para o símbolo do Racing Club de Avellaneda

 

Detalhe fileteado na carroceria de um caminhão antigo

O (quase) desaparecimento do filete portenho

Quando tudo parecia encaminhar-se para a popularização, o fileteado quase acabou extinto. Embora estivesse muito presente na cultura popular, o filete não era encarado como uma “arte séria” pelos críticos e estudiosos de pictórica. Tanto é verdade, que a primeira exposição temática foi organizada somente nos idos de 1970, mais de meio século após o surgimento das primeiras manifestações.

Pouco depois da exposição, veio o golpe-quase-fatal. Uma lei nacional chegava para proibir o fileteado nos coletivos e autobuses da capital argentina (Ordenança SETOP 1606/75). Além disso, o fechamento das fábricas de carroças e carrocerias, e a morte de muitos dos mestres do fileteado fez com que a colorida expressão artística portenha ficasse por um fio. Porém a Arte, quando se vê encurralada e proibida, quase sempre se reinventa.

Ônibus de 1947 com decoração em fileteado. Foto: Roberto Fiadone

O renascimento do fileteado

A partir da proibição de pintar os ônibus, os fileteadores tiveram que se virar. Não demorou muito para que os artistas percebessem que a Arte era o filete, e não o suporte onde ele se encontrava. E assim a criatividade tomou conta. Começaram a pintar placas, paredes, fachadas, anúncios… O filete adquiriu uma nova, impensada e inesperada autonomia. Assim que o filetea’o reencontrou o caminho do coração dos portenhos. E de lá nunca mais saiu. O filete hoje está presente como marca indissociável da cultura argentina. Como as calaveras para a cultura mexicana.

 

Fileteador e seus filetes à venda em Buenos Aires. Foto: Christine 592

O filete portenho hoje

Recentemente, em 2015, o filete foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Imaterial da Humanidade. É encontrado em placas, painéis e murais, camisetas e moda em geral, peças publicitárias, objetos como tênis e máquinas de costura ornamentadas… e até tatuagens!

Depois de tudo o que passou entre criação, proibição, quase-morte e renascimento, o filete está consolidado. É considerado uma expressão artística tipicamente portenha e um dos símbolos da cultura do país, juntamente com o tango.

Máquina de costura ornamentada por filete portenho. Foto: Sílvia Dotta

 

Tênis personalizado com fileteado portenho bordado

 

Painel de filete portenho na estação de metrô

 

Filete portenho na placa do Museo Casa Carlos Gardel
Placa do Museo Casa Carlos Gardel ornamentada com fileteado. Não poderia ser diferente!

 

A placa da loja Havanna no Caminito, um dos fileteados mais famosos do mundo, foi criada pelo mestre fileteador Alfredo Genovese

 

Genovese também é o autor do Manual del Filete Porteño

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Fontes:
http://www.fileteado.com/fileteado_porteno.php
http://vidaportenha.blogspot.com.br/2008/11/filete-portenho.html
http://aguiarbuenosaires.com/filete-portenho-arte-popular-de-buenos-aires/
http://www.correiodopovo.com.br/ArteAgenda/Variedades/Cultura/2015/12/573516/Filete-portenho-entra-na-lista-de-patrimonio-imaterial-da-Unesco
https://noticias.uol.com.br/ultnot/2004/08/08/ult1817u1702.jhtm
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fileteado

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