Torre Monumental de Buenos Aires: o Big Ben da América do Sul

Voltar
torre monumental de buenos aires
Autor: Alexandre Bertolazi Categoria: Conteúdo de Marca, Turismo Tags: Buenos Aires, Torre de los Ingleses, Torre Monumental, Torre Monumental de Buenos Aires

Tempo de Leitura: 8 min

Com o tempo – e as viagens – fui pegando gosto pelas curiosidades de cada lugar. Detalhezinhos da história, coisinhas que enriquecem a experiência de estar neste ou naquele lugar. Saber, enfim, algo um pouco mais profundo sobre o que já rolou por ali. Coisas bobas, como o significado de uma gárgula específica na torre de uma igreja qualquer, por exemplo. Demorei um tempão pra me dar conta de que eu poderia unir as paixões pela pesquisa e pelas historinhas-de-lugarezinhos-que-ninguém-dá-bola com o gosto pela escrita. E bem… aqui estamos! O post de hoje é sobre a Torre Monumental de Buenos Aires, antiga Torre dos Ingleses, aka geni de Buenos Aires.

A Torre Monumental fica no bairro Retiro em Buenos Aires, na Plaza Fuerza Aérea Argentina (antiga Praça Britânica). Ou seja: temos a antiga Torre dos Ingleses na antiga Praça Britânica. Mas mudaram de nome por quê?

Projeto e construção

O Reino Unido era um aliado histórico da Argentina. Desde antes da independência dos portenhos, os ingleses já pensavam em quebrar o monopólio comercial da Espanha fomentavam os ideais de libertação da América. Aliás, o General San Martín, herói máximo da Argentina e um dos Libertadores da América, trouxe suas ideias de revolução da maçonaria da Inglaterra e Escócia, como já contamos neste post aqui.

Então enquanto aliados históricos, os cidadãos britânicos (ou descendentes de) resolveram prestar um tributo ao povo argentino: uma homenagem a Revolução de Maio, que levou à independência da Argentina. Assim, em 1908 foi votado o projeto de lei nº 6368, aprovando a construção de uma coluna monumental pela comunidade inglesa de Buenos Aires.

Em 1910 foram apresentados os projetos no Salón del Bon Marché, atual Galerías Pacífico, e o escolhido por votação foi o do arquiteto britânico Sir Ambrose Macdonald Poynter, neto do fundador do Royal Institute of British Architects. 

E o que era pra ser uma coluna acabou evoluindo para uma torre com relógio, uma prima sul americana para que os britânicos residentes em terras portenhas pudessem matar um pouquinho a saudade do Big Ben.

Projeto, execução da obra e equipe técnica para a empreitada foram todos trazidos da Inglaterra. As pedras Portland, os ladrilhos tipo Leicester e até o cimento utilizado vieram do Reino Unido.

Torre Monumental de Buenos Aires, antiga Torre de los Ingleses, Projetada por Sir Ambrose Macdonald Poynter

Torre Monumental de Buenos Aires

A torre tem 60 metros de altura, oito andares acessíveis por escadas, e um elevador no centro. Foi concebida em estilo palladiano, muito popular na Inglaterra desde o século XVI. Em todas as faces a torre possui diversos ornamentos que remetem aos símbolos das casas reais do Reino Unido, como a flor de cardo que representa a Escócia, a rosa da casa Tudor símbolo da Inglaterra, o dragão de Gales e o trevo da Irlanda.

Lá em cima, aos 45 metros de altura, ficam as 4 faces de relógios com 4,4m de diâmetro, e que originalmente contavam com opalinas inglesas. Mas elas tiveram de ser substituídas por motivos que veremos a seguir. A maquinaria do relógio funciona com sistema de pesos e pêndulos, e ainda conta com cinco sinos de bronze, sendo que o maior pesa aproximadamente sete toneladas.

Ao tocar os quartos de hora, o os sinos imitam o toque da Abadia de Westminster. E no cume da torre, uma cúpula octogonal que termina adornada por um barquinho de três mastros, representando uma fragata da época isabelina.

Atraso na inauguração

O centenário da Revolução de Maio foi em 1910, mas a torre só seria inaugurada 6 anos depois. O atraso se deu por vários fatores. O primeiro foi a ausência de uma delegação inglesa na data marcada para a comemoração. Os ingleses choravam a morte de seu rei, que faleceu em 6 de maio, 18 dias antes das festividades argentinas. Com isso, o início da construção acabou sendo adiado para novembro daquele ano.

Depois, mais atrasos por motivos de “tá rolando uma Guerra Mundial e tá difícil de trazer o material de navio”; e também porque a companhia de gás que ocupava o local antes da construção liberou a área somente em 1912. Assim, a inauguração da Torre dos Ingleses na Praça Britânica aconteceu, finalmente, em 24 de maio de 1916. E desta forma foi celebrada a amizade entre os povos britânico e argentino até que…

Relógios da Torre Monumental. Foto: Boris G

La amistad tembló 

No início dos anos 1980 a Inglaterra de Margareth Tatcher estava afundada em crise, com a economia naufragando no contexto da Guerra Fria. Na Argentina as coisas não estavam muito melhores. Militares podem ser ótimos no seu ofício de fazer guerras, mas governar países definitivamente não está entre os grandes talentos da classe.

Sob o comando da ditadura argentina a inflação anual chegou a 90%. As classes médias estavam empobrecidas, a atividade econômica paralisada, e a dívida externa das empresas e do Estado não parava de aumentar. Pra completar o quadro, o pessoal dos direitos humanos estava pegando pesado nos protestos por causa dos desaparecidos da ditadura, realçando ainda mais o estado de crise do governo militar.

Manobras conservadoras ultranacionalistas de desvio de atenção não são novidade na História moderna. Aliás, se repetem com frequência alarmante. A fim de desviar o assunto da crise total em que se encontrava o governo, um militar teve uma ideia genial:

“O povo argentino precisa de um inimigo comum para odiar e esquecer a crise”! Vamos iniciar um debate sobre arte uma guerra”!

Nascia (ou melhor, foi tirada da cartola) a Guerra das Malvinas.

A Guerra das Malvinas

O plano dos militares argentinos consistia em implementar uma guerra aos poucos. A ideia era mobilizar setores sensíveis do país a apoiarem a empreitada, por interesses “puramente patrióticos”. A estratégia principal partiu de duas premissas simples, que acabaram se provando errôneas:

  1. Os ingleses são nossos amigos históricos, não responderão militarmente.
  2. Os Estados Unidos ficarão neutros, e em último caso darão respaldo a um país também americano.

A tensão entre os dois países começou a aumentar em março de 1982. O navio da armada argentina ARA Bahía Buen Suceso transportou comerciantes em missão comercial à Georgia do Sul, visita previamente agendada entre os dois países. Não haveria maiores problemas…

Se estes comerciantes não tivessem resolvido içar a bandeira da Argentina em terras anexadas ao território britânico. Mais tarde, os ingleses viriam a considerar este como sendo o primeiro ato de guerra entre as duas nações. E aí a coisa toda desandou.

De símbolo da amizade a “geni de Buenos Aires”

Em meio a tiros, mortes e prisioneiros de guerra, acabou-se a amizade entre argentinos e ingleses. As motivações e interesses que levaram ao início e fim da Guerra das Malvinas rendem, por si só, um post inteiro sobre o tema. Então, abandonemos por aqui os horrores da guerra, e voltemos a nossa torrezinha com relógio inglês construída em localização nobre na capital argentina.

Quando o assunto é “defesa da pátria”, nada mais importa. Dane-se que a guerra foi armada, dane-se que os militares estão enganando o povo para desviar a atenção da crise interna: esses gringos estão atacando o meu país. E aí imagine que, na sua cidade, capital do país, tem uma obra construída por estes mesmos gringos.

A Torre dos Ingleses imediatamente virou alvo. Manifestantes se lançaram contra o “monumento ao inimigo”. No processo, destruíram as colunas do alambrado da base, as escadas, balaustradas, fontes ornamentais de granito. E, pra fechar, tacaram fogo na coisa toda. “Joga pedra na Geni, ela gosta de apanhar, ela é boa de cuspir” diria o Chico. E esta é a razão pela qual as tais opalinas inglesas dos relógios tiveram que ser substituídas, conforme mencionado anteriormente. Por motivos de: “o povo quebrou tudo”.

British Clock Tower, a Torre dos Ingleses, hoje rebatizada como Torre Monumental

Hoje em dia

No final dos anos 1990 houve mudanças no sistema de governo da cidade. Fernando de la Rúa foi o primeiro prefeito eleito pelo voto popular na Cidade Autônoma de Buenos Aires. Antes disso, o cargo era político, Governador do Distrito Federal, e era de indicação exclusiva do Presidente da República. Foi de la Rúa quem propôs uma reforma geral na torre, que já se apresentava em estado avançado de deterioração.

Porém, os vandalismos de 1982 não foram consertados, o que é algo totalmente compreensível. É bem difícil imaginar artistas e arquitetos argentinos dispostos a recriar símbolos das casas reais inglesas depois de tudo o que aconteceu.

Atualmente, a Torre Monumental – rebatizada pós-Malvinas – voltou a receber visitação do público. Continua lá no mesmo lugar, a hoje também rebatizada Praça da Força Aérea Argentina, ex-Praça Britânica, ex-praça San Martín.

A torre hoje conta com um moderno elevador de vidro, e que ainda utiliza os mesmos mecanismos do elevador original inglês. Este elevador leva até o sexto andar, onde estão algumas relíquias da época da construção da torre. Neste andar fica também o mirante, de onde pode-se apreciar a vista da praça, do bairro Retiro, do terminal rodoviário e do Porto de Buenos Aires.

E aí, bora lá ver a Torre Monumental com os próprios olhos?

 

Grupo da Excursão Buenos Aires Reveillon 2017 da Multivibe Viagens e Turismo

Compartilhe este post:

Comment (1)

  • mmt Reply

    Muito interessante! Olha que nasci e cresci em Bs.As. até os 90 e não sabia que podia ser visitado nem como era a sua construção original.

    20 de abril de 2018 at 22:21

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Voltar

Promoção de Lançamento: Avaliação Gratuita de Site

Relatório gratuito sobre a velocidade e SEO do seu site!

Receba seu report produzido por especialistas em até 7 dias úteis.